quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ensaio sobre o creminho


      Pois bem, é hora de falar de creminho. E não pense o senhor e a senhora que estamos falando de Monange, tampouco de Cremogema – ainda que o creme em questão em muito se assemelhe ao mingau. Não, esse creminho é mais embaixo.
      O cenário é o seguinte: festa de rua. Baile funk. Calor infernal. Cerveja. Suor. Pronto, todos os elementos necessários à produção do creminho estão presentes. O sujeito compra a cerveja naquelas barraquinhas de pau e plástico, cheias de latinhas penduradas pra fazer a propaganda, e vai dançando e bebendo, fazendo o “passinho” e bebendo... a cerveja esquenta e ele engole rápido pra não desperdiçar os “três real” que pagou no latão de 475ml. A bexiga aperta. Não, ele não procura um banheiro, a parede é logo ali. É notável como esse pessoal que mija na rua pensa que basta virar uma esquina e dar alguns passos para o pau ficar invisível. Mijar na rua da festa é feio, mas na esquina, com toda a gente olhando do mesmo jeito, é normal. Sai o jato. O esguicho bate com força na parede e respinga pra todo lado: no pé, na bermuda, na camisa e no sujeito que está mijando ao lado. Uma sacudidela rápida, nervosa, precede o retorno do pinto à sunga. Porém, como todo possuidor de pinto bem sabe, nem duzentas sacudidelas seriam suficientes para se livrar dos últimos resquícios de urina. Como diz o ditado, “a última gota é da cueca”. Começa, então, a mágica.
      O sujeito volta para a festa e aproveita para limpar as mãos na camisa dos amigos, fingindo um cumprimento. Na escuridão úmida de seu prepúcio aquele restinho de urina cozinha, se mistura ao suor e, no remelexo do pancadão, começa a ganhar consistência. Está pronto o creminho.
      Uma vítima incauta é abordada pelo portador do requeijão. Não é preciso muita conversa: duas ou três interjeições acompanhadas de um verbo e uns grunhidos bastam para convencer a safadenha a enveredar por aquela esquina, lembram? A mesma onde todo mundo mija, só que uns metros mais acima. Enfiados entre o muro e um carro estacionado, trocam cinco minutos de beijos com sabor de cerveja e cigarro paraguaio, então, ele coloca as mãos em seus ombros. Ela entende o sinal e se agacha cedendo gentilmente à pressão. Abre-se o zíper. Na penumbra, a vítima não consegue distinguir o perigo à sua frente e gulosamente coloca em sua boca aquele piru cheio de creminho cozido. E ainda raspa tudo com a língua. Mas, não se enganem, senhoras e senhores! O ciclo do creminho ainda não está completo – antes estivesse.
      A vítima, após exaustivo trabalho bucal, volta para o baile. Ora, todos sabem que não se escovam os dentes numa festa de rua... então, aquele creminho que outrora emboçava como argamassa a glande do mijão agora está nos dentes da ném. Seu rebolado em forma de quadradinho logo chama a atenção de um rapaz casto e católico, que só está ali porque o primo motoboy o convidou. Ele ganha confiança e vai conversar com a contaminada. A conversa dá frutos e ele ganha um beijo. Comprido. De língua. Cheio de creminho daquele outro cara.
      Imaginem agora, senhores e senhoras, esse fenômeno se repetindo múltiplas vezes, por toda a extensão da festa. Mijo, suor, saliva, beijos, boquetes, creminho pra todo lado. É a verdadeira orgia do creminho. No fim da noite todos voltam para casa com um estranho sabor salgado na língua. E dormem sem escovar os dentes. O que surge em suas bocas na manhã seguinte é tão imoral que não merece uma crônica.